Aerys II: O Rei Louco

aerysii-o-rei-louco

O primeiro trailer da sexta temporada de Game of Thrones mostrou-nos que vai haver um flashback dos acontecimentos na Torre da Alegria, no final da Rebelião de Robert. Este artigo sobre Aerys II, pai de Daenerys Targaryen, é o primeiro de uma série que narra os acontecimentos que culminaram na morte de Lyanna Stark e na promessa que Ned lhe fez.

Aegon V
Linhagem Targaryen a partir de Aegon V (carrega na imagem para ampliar)

A Ascenção ao Trono

Aerys tornou-se rei aos dezoito anos, em 262 DC, depois da morte do pai, Jaehaerys II. Não era o mais inteligente nem o mais diligente dos príncipes, mas tinha um encanto que lhe permitia conquistar muitos amigos. Tinha vários defeitos que não eram visíveis de imediato: era vaidoso, orgulhoso e inconstante, características que atraíram muitos bajuladores.

Quando chegou ao trono, Aerys II tinha já um herdeiro, Rhaegar, nascido durante a tragédia de Solarestival. A mãe de Rhaegar era Rhaella, irmã de Aerys. Os réis eram novos e previa-se que viriam a ter muitos mais filhos, algo absolutamente vital para a continuidade da Casa Targaryen, uma vez que muitos membros da família tinham morrido nas chamas de Solarestival.

Aerys II e a sua esposa e irmã, Rhaella
Aerys II e a sua esposa e irmã, Rhaella

Aerys decidiu substituir os homens velhos e experientes que compunham a sua corte por pessoas da sua geração. Substituiu mesmo o Mão, Edgar Sloane, pelo jovem Tywin Lannister. Tywin tornou-se, aos vinte anos, o mais jovem Mão na história dos Sete Reinos. Aerys II conhecia Tywin desde a infância, pois o Mão tinha servido como pajem em Porto Real em rapaz. Aerys, Tywin e Steffon Baratheon (primo de Aerys, que no futuro veio a ser pai de Robert, Stannis e Renly) tornaram-se inseparáveis. Quando Aerys ganhou as esporas aos dezasseis anos, foi Tywin quem o nomeou cavaleiro.

O rei era animado, gostava de música, de dança e de mulheres jovens, estando a corte cheia de belas donzelas de todos os cantos do reino. Alguns diziam que Aerys II teve tantas amantes como Aegon IV, mas Aerys fartava-se muito mais depressa das amantes do que o seu antepassado.

Os planos de Aerys

O jovem rei tinha em mente grandes planos. Pouco depois de ser coroado, anunciou que queria conquistar os Degraus. Mais tarde, em 264 DC, visitou o Norte e decidiu que queria construir uma nova Muralha, cem léguas a norte da existente, e reclamar as terras entre as duas Muralhas. No ano seguinte, quis construir uma “cidade branca”, toda feita em mármore, na margem sul da Torrente da Água Negra, pois estava “ofendido pelo fedor de Porto Real”. Em 267 DC, devido a dívidas que o seu pai tinha contraído junto do Banco de Ferro de Braavos, disse que ia construir a maior frota de guerra do mundo “para pôr o Titã de joelhos”. Em 270 DC, visitou Dorne e disse à Princesa de Lançassolar que ia escavar um canal por baixo das montanhas para trazer água da mata de chuva, a fim de “fazer os desertos de Dorne florescer”.

Nenhum destes planos chegou a concretizar-se, como seria de esperar. Na verdade, Aerys esquecia os seus planos rapidamente, pois aborrecia-se com eles. Apesar dos devaneios do rei, os Sete Reinos prosperaram durante a primeira década do reinado de Aerys II, pois Tywin Lannister era um Mão muito competente.

A relação com o Mão, Tywin Lannister

800px-Tywin_and_Aerys
Aerys II e o seu Mão, Tywin Lannister

Era Tywin quem tomava conta do reino. Dizia-se mesmo que podia ser Aerys a usar a coroa, mas era Tywin quem governava. Tywin resolveu o conflito com o Banco de Ferro, pagando ele próprio a dívida da coroa. O Mão começou a conquistar a simpatia e o apoio de muitas pessoas, pois reduziu os impostos sobre a navegação, reparou estradas, organizou torneios, promoveu o comércio com as Cidades Livres e puniu criminosos.

No entanto, Tywin continuava a ser pouco acarinhado, pois era visto como implacável, cruel, orgulhoso e inflexível. Os seus vassalos eram-lhe leais mas nenhum era seu amigo. Tywin desprezava o pai, Tytos, e a sua relação com os irmãos Tygett e Gerion não era pacífica. Apenas mostrava apreço pelo irmão Kevan e pela irmã Genna.

Em 263 DC, Tywin casou com a bela prima Joanna Lannister, uma das damas de companhia da então Princesa Rhaella. Diz-se que o amor que Tywin sentia por Joanna era “profundo e duradouro” e que só ela o conhecia verdadeiramente.

Joanna Lannister, esposa de Tywin e mão de Cersei, Jaime e Tyrion
Joanna Lannister, esposa de Tywin e mão de Cersei, Jaime e Tyrion

O casamento entre Aerys II e Rhaella não era feliz como o do Mão. Rhaella ignorava a maior parte das traições do marido, mas não admitia que ele se interessasse pelas suas damas de companhia. Por isso, quando Aerys mostrou interesse por Joanna, ela teve de abandonar o serviço da rainha.

A relação entre os réis foi ficando cada vez mais tensa, muito devido à incapacidade da rainha dar a Aerys mais herdeiros. Embora Aerys, inicialmente, procurasse confortar a rainha, foi ficando desconfiado. Aerys II achava que a esposa lhe estava a ser infiel, sendo essa a razão pela qual Rhaella teve sucessivos abortos, nados-mortos e filhos que morreram ao fim de poucos meses. Por isso, Aerys decretou que a irmã não poderia sair da Fortaleza da Maegor e que teria de estar sempre acompanhada de septãs.

Os mesmos problemas não assolavam o casal Lannister. Em 266 DC, Joanna deu à luz um par de gémeos, em Rochedo Casterly, o que contribuiu para a degradação da relação entre o rei e o seu Mão. Aerys II terá mesmo afirmado que tinha casado com a mulher errada quando soube do nascimento de Cersei e Jaime, dizendo a Tywin que levasse as crianças e a mãe para Porto Real, pois já há muito tempo não contemplava a beleza de Joanna.

Em 267 DC, Tytos Lannister morreu, tornando-se Tywin o novo Senhor de Rochedo Casterly e Protetor do Oeste. Tywin viajou para o Ocidente e o rei decidiu acompanhá-lo, levando consigo o filho Rhaegar, na altura com 8 anos, e metade da corte. Durante o ano seguinte, o reino foi governado a partir de Rochedo Casterly e de Lannisporto.

Quando, em 268 DC, a corte regressou a Porto Real, era notório que a amizade entre Aerys e Tywin já não era a mesma. Os dois começaram a discordar em diversas questões e o rei começou a tomar decisões polémicas, culpando o Mão por essas decisões quando alguém se queixava. Aerys II começou a afastar homens apenas por suspeitar que poderiam ser “homens do Mão”, nomeando os seus favoritos para os substituir.

Em 272 DC, foi organizado o Torneio de Aniversário, para comemorar os dez anos de Aerys II no trono. Joanna viajou para Porto Real a fim de apresentar os gémeos à corte e foi humilhada à frente de todos, quando o rei lhe perguntou se dar de mamar às crianças lhe tinha “arruinado os seios, que eram tão elevados e orgulhosos”. Tal comentário satisfez os rivais de Tywin, que ficavam contentes sempre que o Mão era rebaixado.

Apesar da tensão entre o rei e o Mão, Aerys nunca demitiu Tywin, aproveitando para troçar dele e lhe fazer grandes desfeitas. Tywin foi suportando tudo em silêncio. A gota de água chegou em 273 DC, quando Joanna morreu ao dar à luz Tyrion, um bebé anão, com pernas atrofiadas e uma cabeça demasiado grande. Quando Aerys soube do nascimento de Tyrion, disse que tal foi obra dos deuses por não suportarem a arrogância de Tywin:

“Os deuses não podem tolerar tamanha arrogância. Arrancaram-lhe da mão uma bela flor e deram-lhe em seu lugar um monstro, para finalmente lhe ensinarem alguma humildade.”

George R. R. Martin, in O Mundo de A Guerra dos Tronos

Tywin continuou a trabalhar como Mão, enquanto a loucura do rei crescia visivelmente. Aerys II pareceu ficar mais calmo quando a rainha lhe deu outro herdeiro, em 274 DC, mas também esta criança acabou por morrer. O rei voltou a mergulhar no desespero e mandou matar a ama de leite do filho, pois achava que era ela a culpada da morte do bebé. Mais tarde, convenceu-se de que a verdadeira culpada era a sua amante – a rapariga, bem como toda a sua família, foi torturada até à morte.

Aerys II Targaryen, mais tarde, fez um jejum de quinze dias e caminhou até ao Grande Septo, onde rezou com o Alto Septão. Quando regressou, anunciou que nunca mais iria trair a rainha, o que, aparentemente, se veio a tornar verdade. Tal parece ter agradado aos deuses, pois Rhaella deu outro herdeiro ao rei: em 276 DC, nasceu o príncipe Viserys. No entanto, este nascimento não teve o mesmo efeito no rei que o anterior: o rei tornou-se cada vez mais obsessivo, pois tinha medo que também Viserys acabasse por morrer. Como tal, ordenou à Guarda Real que estivesse com o bebé dia e noite e nem mesmo a rainha podia estar sozinha com o filho.

Ainda nesse ano, Tywin Lannister organizou um torneio em Lannisporto para comemorar o nascimento de Viserys. O rei acabou por ceder e marcar presença, mas a rainha e o pequeno príncipe ficaram em Porto Real. O Príncipe Rhaegar derrubou dois dos irmãos de Tywin no torneio, o que deixou o rei bastante animado. Tywin aproveitou a boa disposição de Aerys para propor um casamento entre Rhaegar e a sua filha Cersei. Aerys II rejeitou bruscamente a proposta, dizendo que Tywin era um bom criado mas que não passava disso mesmo, tendo também rejeitado nomear Jaime Lannister escudeiro de Rhaegar.

Rhaegar Targaryen
Rhaegar Targaryen

O Desafio de Valdocaso

Valdocaso era uma vila portuária que via o seu comércio decrescer à medida que o de Porto Real aumentava. O seu jovem senhor, Denys Darklyn, decidiu pedir um foral que desse a Valdocaso mais autonomia em relação à Coroa, tal como acontecia com Dorne. Tywin recusou o pedido do Lorde Darklyn, por temer que tal abrisse um precedente perigoso. Furioso, Denys Darklyn elaborou um plano para obter o foral e baixar as tarifas portuárias. Recusou-se a pagar os impostos e convidou o rei a ir a Valdocaso ouvir a sua petição. Para contrariar o Lorde Tywin, Aerys decidiu aceitar o convite do Lorde Darklyn, convite esse que era uma armadilha. O rei foi capturado com a sua escolta; alguns dos homens acabaram mortos. Tywin tentou negociar a entrega do rei, mas o Lorde Denys disse que, se alguma tentativa fosse feita para assaltar o castelo, mataria o rei. O Mão decidiu, então, bloquear a vila, tanto por terra, como por mar. Com as provisões a escassear, o Lorde Darklyn tentou conversar com Tywin, mas este recusou-se a ouvi-lo, exigindo a rendição e a libertação do rei. O Desafio acabou por durar meio ano.

O ambiente estava cada pior dentro das muralhas de Valdocaso, mas Denys Darklyn achava que Tywin ia ceder e oferecer melhores termos. Tywin fez precisamente o oposto: exigiu pela última vez que o Lorde Darklyn se rendesse e, se tal não acontecesse, iria tomar a vila de assalto, matando todas as pessoas que encontrasse. Vários membros do pequeno conselho opuseram-se à decisão de Tywin, temendo que o rei fosse morto. O Mão disse que, se tal acontecesse, tinha ali um rei melhor, apontando para Rhaegar. Nunca se soube quais eram as verdadeiras intenções de Tywin. Estaria à espera de que Aerys fosse morto e de que Rhaegar se tornasse rei?

O Desafio terminou graças à coragem de Sor Barristan Selmy, que entrou secretamente na vila e resgatou o rei. Depois de ter tirado Aerys II da masmorra onde este se encontrava, Barristan, o Ousado, teve de lutar para conseguir cumprir a sua missão. Chegou, finalmente, à vila com o rei a salvo, o que levou o Lorde Darklyn a render-se. Aerys II ordenou que toda a sua família, mesmo os parentes afastados, fosse morta. Nem a família do genro do Lorde Darklyn, os Hollard, foi poupada. O único sobrevivente foi Dontos Hollard (que nós conhecemos por ter ajudado Sansa a fugir depois da morte de Joffrey), que só foi poupado porque Sor Barriston suplicou ao rei por misericórdia.

Aerys II condena os Darklyn
Aerys II condena os Darklyn

Após o Desafio

O Desafio de Valdocaso destruiu a pouca sanidade que ainda restava a Aerys II. Durante o cativeiro, os Darklyn despiram o rei dos seus trajes régios e chegaram mesmo a bater-lhe. Tal fez com que Aerys não deixasse que ninguém lhe tocasse, nem mesmo os seus criados. O seu cabelo e as suas unhas nunca mais foram cortados. Proibiu lâminas na sua presença, às exceção das espadas da Guarda Real. Durante os quatro anos após a sua libertação, não saiu da Fortaleza Vermelha, ficando cada vez mais desconfiado de todos os que o rodeavam, especialmente de Tywin Lannister. Também desconfiava de Rhaegar, pois achava que o filho tinha conspirado com Tywin para que o Desafio de Valdocaso terminasse na sua morte, de forma a que Rhaegar pudesse subir ao trono e casar com Cersei Lannister.

Aerys II com o cabelo desgrenhado e unhas gigantes, depois de proibir que lhe tocassem
Aerys II com o cabelo desgrenhado e unhas gigantes, depois de proibir que lhe tocassem

Para evitar este cenário, Aerys chamou Steffon Baratheon, seu amigo de infância, e nomeou-o para o pequeno conselho. O Lorde Steffon teve a missão de viajar até ao outro lado do mar estreito para encontrar uma noiva adequada para Rhaegar, de uma antiga linhagem valiriana. Supunha-se que o rei queria nomear Steffon Baratheon como seu Mão, mas o Lorde Steffon morreu quando o navio em que seguia durante a sua missão naufragou. Aerys II, completamente louco, afirmou que Tywin tinha descoberto os seus planos e organizado o assassínio do Lorde Baratheon. A partir de então, o rei só se reunia com Tywin na presença da Guarda Real, com medo de que Tywin o mandasse matar.

Para saber o que as pessoas à sua volta estavam a conspirar, pois achava que estavam a preparar a sua morte, Aerys mandou vir um eunuco de Essos (sem qualquer ligação a Westeros) para ser o seu mestre dos segredos. Chegou, assim, à corte Varys (que viria a ser conhecido como a Aranha), o informador do rei até ao fim do seu reinado.

Após a prisão em Valdocaso, o rei começou a mostrar uma grande obsessão com o fogo de dragões, tal como aconteceu a muitos dos seus antepassados. O rei tentou fazer nascer dragões de ovos encontrados em Pedra do Dragão, mas todas as tentativas foram infrutíferas. Aerys II virou-se, então, para a Guilda dos Alquimistas, que sabia como produzir fogovivo, que se dizia ser uma substância próxima do fogo de dragão. Em vez de serem decapitados, os homens que o rei condenava passaram a ser queimados vivos. Foi nesta altura que Aerys II passou a ser conhecido como o Rei Louco.

Em 289 DC, numa altura em que o rei e o filho mais velho estavam cada vez mais afastados, Rhaegar ficou noivo de Elia Martell, Princesa de Dorne. Casaram no ano seguinte, mas Aerys não esteve presente no casamento, pois temia que o tentassem matar se abandonasse a Fortaleza Vermelha. Muitos boatos começaram a circular depois do casamento, pois Rhaegar e Elia decidiram morar em Pedra do Dragão, não na Fortaleza Vermelha. Uns achavam que Rhaegar pretendia depor o pai e subir ao Trono de Ferro, outros diziam que Aerys planeava deserdar Rhaegar e deixar o trono a Viserys.

O casamento de Rhaegar Targaryen e Elia Martell
O casamento de Rhaegar Targaryen e Elia Martell

O início do fim

O Lorde Tywin sentia-se seguro no seu cargo depois da morte de Steffon Baratheon, tanto que até levou a filha para a corte. No entanto, a relação entre Aerys e o seu Mão rapidamente chegou ao fim. Em 281 DC, o rei decidiu oferecer um manto branco a Jaime Lannister, que tinha apenas 15 anos. Tal era um problema para a continuação da Casa Lannister, pois Jaime era a única esperança para dar continuidade à família. Aerys conseguiu, assim, tirar a Tywin o seu herdeiro.

Tywin Lannister agradeceu ao rei a honra que era escolher o seu filho para a Guarda Real. Depois, alegando motivos de saúde, pediu a Aerys para se retirar do cargo de Mão, algo que o rei aceitou de bom grado. O Lorde Tywin regressou a Rochedo com a filha, Cersei, e o Lorde Owen Merryweather tornou-se o novo Mão.

Pouco depois, o Lorde Walter Whent organizou um torneio em Harrenhall para celebrar o aniversário da sua filha. Foi esse o evento escolhido por Aerys II para investir Jaime Lannister como cavaleiro da Guarda Real e onde Rhaegar Targaryen nomeou Lyanna Stark como rainha do amor e da beleza. E assim começou o fim do domínio da Casa Targaryen nos Sete Reinos.

Aerys II
Aerys II

Fontes:

O Mundo de A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin (texto)

A Wiki of Ice and Fire; O Mundo de A Guerra dos Tronos, de George R. R. Martin (Imagens)

About Lyanna

Nascida nos reinos gelados do Norte, Lyanna esconde muitos mistérios. O que não é segredo é a sua paixão pelo mundo de Gelo e Fogo, que gosta de partilhar com todos à sua volta.